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O Homem do Furo na Mão e outras histórias (Ignácio de Loyola Brandão)

Depois do Sol (1965) - Contos; Bebel que a cidade comeu - Romance; Não verás país nenhum - Romance; O verde violentou o muro - Reportagem; A Rua de Nomes no Ar - Crônicas.

Considerações Gerais

Contos são pequenas histórias, porém densas, psicológicas. Essas são fantásticas e em linguagem direta, fazem crítica social através de relações absurdas entre os homens no convívio em sociedade.

Resumo

Além de O Homem do Furo na Mão, que narra o isolamento do indivíduo devido ao preconceito, Loyola aborda em O homem que resolveu contar apenas mentiras, a hipocrisia social; em O homem que devia entregar a carta, o abuso de autoridade e a submissão sem questionamento; em Os homens que não receberam visitas, narra os limites entre loucura e normalidade; em O Presidente da China, o desejo do poder; em A Descoberta da Escrita, a luta pela liberdade de expressão; em Pega ele, silêncio, o desejo por ascensão social; e em O homem que procurava a máquina, a obstinação pela verdade.

Antologia

O conto que dá título à coletânea, a presença de um furo indolor na mão do personagem acaba por marginalizá-lo dentro de seu próprio universo, o que demonstra o papel repressivo e massificante de uma sociedade que rejeita a singularidade do indivíduo.

Há doze anos tomavam café juntos e ela o acompanhava até a porta.

- Você está com um fio de cabelo branco, ou tinge ou tira.

Ele sorriu, apanhou a maleta e saiu para tomar o ônibus, faltavam doze para as oito, em três minutos estaria no ponto. O barbeiro estava abrindo, a vizinha lavava a calçada, o médico tirava o carro da garagem, o caminhão descarregava cervejas e refrigerantes no bar.

Estava no horário, podia caminhar tranqüilo. Na mão, descobriu uma leve mancha avermelhada de uns dois centímetros de diâmetro. Quando o ônibus chegou, a mão coçou de novo.

Agora ardia um pouco e ele teve a impressão de que no lugar da mancha havia uma leve depressão. Como se tivesse apertado uma bolinha muito tempo, com a mão fechada.

Ao chegar no escritório, naquele dia, ficou a disfarçar a mão entre os papéis da sua mesa, pois não queria que os amigos vissem o furo de sua mão. À noite, ao chegar em casa e mostrar o furo para a esposa, esta sugeriu um band - aid, e o homem rejeitou a sugestão, pois já começava a se afeiçoar àquele furo. No outro dia, a esposa o abandona por não poder viver com você enquanto esse buraco existir. Durante o expediente se comunicou com o sogro e este nada sabia de sua filha. No final do serviço, perambulou pelos lugares onde pudesse encontrá-la, sem sucesso. A empregada também resolve deixar a casa e o homem começa a se aperceber da marginalização que passa a sofrer por causa de sua diferença, o furo na mão.

No ônibus não embarca, foi demitido do emprego, nem sequer lhe era permitido sentar no banco da praça.

- O senhor quer sair deste banco?

Era um homem de farda abóbora, distintivo no peito: fiscalização de parques e jardins.

- O que tem este banco?

- Não pode sentar nele.

Ele mudou para o banco ao lado, o homem seguiu atrás.

- Nem neste.

- Em qual então?

- Em nenhum.

- Olhe quanta gente sentada.

- Eles não têm buraco na mão.

- Daqui não saio.

O homem enfiou a mão embaixo da túnica, tirou um cacete, deu uma pancada na cabeça dele. As pessoas se aproximaram, enquanto ele cambaleava.

(...) - Saia, saia, gritavam as pessoas em volta.

Por fim, perdeu tudo e todos, indo morar com uns mendigos embaixo da ponte, que também tinham furos nas mãos.

Personagens

Esposa, barbeiro, vizinha, médico, homem de farda, homem com o furo.

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